Hemofílicos com Artropatia ganham vida nova com a colocação de próteses ortopédicas em SC
Projeto idealizado por uma equipe de médicos, dentistas e enfermeiros foi possível através de recursos doados pelo MPT
Florianópolis - Com a ajuda do Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT), a Fundação de Apoio ao Hemosc/CEPON (FAHECE) está conseguindo reduzir o número de pacientes hemofílicos acometidos de Artropatia Hemofílica - hemartroses (sangramentos articulares) e hematomas musculares, decorrentes da hemofilia, que há anos aguardavam por próteses e órteses ortopédicas. A compra dos materiais foi possível com a destinação de cerca de 300.000,00 (trezentos mil) pelo MPT-SC, beneficiando oito pacientes até agora. Foram realizadas três cirurgias de quadris e 12 de joelhos, já que alguns precisaram próteses em mais de uma articulação. Um último procedimento será feito este ano, totalizando nove hemofílicos atendidos nesta primeira etapa do Projeto.
A Artropatia Hemofílica decorre de sangramentos repetitivos e levam à degeneração articular progressiva com a perda de movimentação e atrofia muscular principalmente dos quadris, joelhos, cotovelos e tornozelos. Os problemas enfrentados pelos pacientes resultam em dores, desconforto, até a impossibilidade de locomoção.
As pessoas já operadas ou que aguardam na fila para a colocação das próteses são avaliadas criteriosamente por uma equipe multidisciplinar do Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (HEMOSC), construído por sete hemocentros regionais, distribuídos nas cidades de Florianópolis (hemocentro coordenador), Joinville, Blumenau, Criciúma, Lages, Joaçaba e Chapecó. As equipes são formadas por profissionais de hematologia, pediatria, ortopedia, odontologia, fisioterapia, enfermagem e serviço social. Nos hemocentros os doentes são atendidos durante intercorrências hemorrágicas e em consultas de rotina para avaliação clínica e laboratorial. Os pacientes identificados com algum sinal de Artropatia, são submetidos a exames de imagens e depois encaminhados aos especialistas na capital do estado.
Fagner Líbano de Araújo, 30 anos, foi o primeiro paciente a passar pela cirurgia, em agosto de 2019. Ele conta que aos 25 anos já não conseguia andar direito. Se arrastava para caminhar e não conseguia fazer tarefas diárias. Mesmo com dificuldades sempre trabalhou em vagas de pessoa com deficiência e agora, já recuperado, caminhando normalmente, pratica atividades físicas, brinca com os sobrinhos e sonha em fazer o curso de direito. “Vida nova foi o que eu ganhei”, diz ele com alegria estampada nos olhos. Fagner colocou próteses nos dois joelhos. Na foto, exibe a mobilidade adquirida após a cirurgia.

O Projeto que está mudando a vida de dezenas de catarinenses, é composto por nove profissionais entre médicos, dentistas, fisioterapeutas, enfermeiros e farmacêuticos. Vivian Karla Brognoli Franco, médica hematologista, conta que logo que a parceria foi firmada entre a FAHECE e o MPT teve início a pandemia de Covid-19 o que atrasou as cirurgias, já que o acordo previa a realização dos procedimentos no Hospital de Florianópolis, o qual foi fechado para os processos seletivos e destinado exclusivamente para atendimento às vítimas do coronavírus. “Assim que conseguimos organizar com o CEPON os procedimentos no centro cirúrgico deles, começamos as operações. A maioria não tinha mais as mínimas condições de levar uma vida normal, fazer tarefas simples do dia a dia”, relata.
Após serem submetidos à cirurgia, os pacientes seguem sendo acompanhados pela equipe do HEMOSC no pós-operatório e quando recebem alta do CEPON, aqueles que moram no interior do estado, permanecem na Casa do Hemofílico localizada em Florianópolis, sem custeio financeiro, até passar por todo o processo de adaptação e fisioterapias e voltar para a cidade de origem.
Djavan Maurino da Costa, 27 anos, é de Garopaba. Passou dois meses na Casa do Hemofílico recebendo todo o atendimento necessário depois da cirurgia. Atualmente faz fisioterapia e é avaliado pela equipe de especialistas, apenas duas vezes por semana, na capital do estado. Aposentado devido a Artropatia, casado e pai de dois filhos, hoje é só alegria. “Tudo o que eu queria era poder pegar meus filhos no colo, brincar com eles e ajudar minha esposa a cuidá-los. Agora eu quero ir além...eu renasci e tenho uma longa estrada pela frente. O sonho de muita gente que é a aposentadoria eu quero é revogar. Meu desejo é trabalhar para sustentar minha família, concluir o ensino médio e depois fazer um curso de técnico em edificações e engenharia civil”, planeja.

Retomar as atividades profissionais, renunciar à aposentadoria como prevê Djavan, é um dos resultados positivos do Projeto. Luiz Antônio Bitencourt, 38 anos, colocou próteses nos dois joelhos. Boa parte da vida ele ficou parado, vivendo do benefício previdenciário. Aos 24 anos conseguiu uma vaga de pessoa com deficiência, ainda dependente de muletas e hoje, livre de qualquer equipamento de apoio, caminha tranquilamente e está integrado à população economicamente ativa (PEA). Trabalha como motorista e cobrador de ônibus, no transporte público da Grande Florianópolis.
“Depois de passar pela cirurgia ganhei vida nova! Além do emprego com carteira assinada, tudo certinho, minha vontade maior era poder carregar meu filho no colo, passear e correr com ele...coisa que antes eu não imaginava conseguir fazer e hoje faço. Sou um profissional e um pai realizado”, afirma.

Edson Pinheiro, tem uma prótese implantada há 25 anos. Com nove anos de uso deveria ter sido trocada, o que não ocorreu, dificultando ainda mais a locomoção do agricultor. “Aos 13, 14 anos eu comecei a sentir as dores após cair de bicicleta e machucar meu joelho. Eu nunca tive uma rotina igual à dos meus amigos, minha vida foi dentro de hospitais e depois do acidente só piorou”, chora ao relatar. Edson, morador de Itapema/SC será o próximo a receber a prótese nova de joelhos. Emocionado ele diz que está preso a dor, mas “graças a Deus em breve tudo estará bem e aos 54 anos quero voltar a trabalhar, vou poder viver um pouco da minha vida livre das muletas e do sofrimento que eu carrego desde criança”.

O médico ortopedista Daniel Teixeira de Oliveira, também responsável pela equipe que idealizou o Projeto, explica que as próteses adquiridas por meio da doação do MPT, são importadas, de alta qualidade e tem mais de 20 anos de duração. “São materiais com resultados excelentes nos seus seguimentos ao longo de anos”.
“O tratamento profilático para a reposição de fator de coagulação não estava disponível há até 10 anos. Na ocasião, os pacientes aplicavam fator somente quando sangravam e não de forma a evitar o sangramento. Por este motivo, muitos desenvolveram alterações articulares secundárias a sangramentos de repetição, a chamada Artropatia Hemofílica, como nos casos identificados em Santa Catarina que necessitam de próteses ortopédicas”, explica a hematologista Vivian.
Outros 16 hemofílicos se enquadram nessa condição e precisam dos implantes. A equipe já tem a garantia de quem os procedimentos continuarão sendo realizados no Centro de Pesquisas Oncológicas de SC. “O trabalho agora é buscar parceiros que ajudem na compra das próteses e, assim como construímos com o MPT a solução para devolver a mobilidade a oito hemofílicos beneficiados na primeira etapa, dar qualidade de vida aos demais pacientes que aguardam pela oportunidade”, apela o ortopedista Daniel.
Antes de 2019, quando a parceria saiu do papel, as cirurgias eram realizadas em Curitiba/PR. O aporte de recursos provenientes da atuação do MPT possibilitou a especialização e a formação de uma equipe médica permanente e que se consolidará com a nova fase do Projeto.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social MPT-SC
(48) 32519913 / (48) 999612861
Publicado em 07/10/2022